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Gallaecia e o antigo segredo de Compostela








Gallaecia e o antigo segredo de Compostela


Gallaecia era o nome dado pelos Romanos à atual Galícia. Uma região que guarda muitos segredos, dentre os quais um antigo segredo de Compostela.

As várias rotas de peregrinação do que conhecemos como Caminho de Santiago, terminam na catedral de Santiago de Compostela, capital da Galícia. Há mais de mil anos, esses caminhos têm sido percorridos por muitos peregrinos para homenagear e reverenciar o apóstolo Tiago. O túmulo atribuído a ele foi ali descoberto.

De acordo com a lenda, isto ocorreu num local conhecido em Latim por “Campus Stellae” (Campo de Estrelas em português). Esta denominação veio em função das chuvas de estrelas que ali foram avistadas à noite, pouco antes da descoberta do túmulo do Apóstolo Tiago. Assumiu-se que as chuvas indicavam o local do túmulo.

Desde o século IX, entretanto, alguns peregrinos entendem que ao chegar na Catedral de Santiago de Compostela, a peregrinação ainda não está completa.

Gallaecia e os segredos de Compostela

Quando os conquistadores Romanos chegaram na região que hoje é a Galícia, encontraram pessoas que viviam ali. Com pele bem clara e cabelos louros, se assemelhavam às tribos da Gália, que é a atual França.

Chamaram a estas pessoas de Gallaeci, em referência à região da Gália, a essa altura também dominada pelos Romanos. Por isso, herdou-se o nome Galícia para a região noroeste da Península Ibérica, como conhecemos hoje.

Um dos segredos que a região guarda é que por toda a Galícia, da fronteira sul com Portugal até a região costeira do Mar Cantábrico, vamos ter oportunidade de nos deparar com elementos e aspectos da presença humana desde muito antes da descoberta do túmulo atribuído ao Apóstolo Tiago em Compostela.

As trilhas que existem espalhadas na Península Ibérica, hoje conhecemos por Caminhos de Santiago de Compostela. Porém, muitos grupos humanos percorriam estas rotas desde os tempos neolíticos na pré-história. Os motivos eram muito diversos, e bem anteriores ao intuito de visitar o local do túmulo atribuído ao Apóstolo Tiago.

Pelos Caminhos de Santiago, haverá oportunidade de conhecer e vivenciar todos esses aspectos da Idade Média antes do século IX, e até de períodos anteriores. Vale muito para o peregrino aproveitar as oportunidades que o Caminho de Santiago oferece. Olhar para um passado mais longínquo da humanidade, e de sua gente, que se deslocou e viveu no que hoje conhecemos como Galícia.

Compostela guarda segredos vinculados a aspectos de história, cultura e turismo nos locais onde existem caminhos oficiais para Santiago de Compostela. E queremos contá-los. Em especial, o que encontramos na rota para Fisterra (ou Finisterre em Espanhol).

Conheça mais sobre a Galícia, uma terra de cultura, história e turismo.

Fisterra (ou Finisterre) e o fim do mundo

Após chegar em Santiago de Compostela, muitas pessoas fazem uma rota adicional para conhecer Fisterra. O famoso e mítico final do mundo, conhecido desde antes do Renascimento e da Idade Moderna pelos povos pré-românicos.

Trilhavam pela Península Ibérica até chegarem ao final da Terra, o que acontecia desde pelo menos há 3.000 anos atrás. Os deslocamentos destes grupos humanos pré-românicos se destinavam a rituais de adoração de seus Deuses e também em função de rituais de procriação, já que não existia o conceito de casamento.

O nome Fisterra vem do Galego, mas com origem no latim, que significava literalmente o “fim da terra”. É uma história, de espiritualidade e devoção, que remonta a pelo menos mil ou dois mil anos antes do nascimento de Jesus.

Os Gallaeci eram animistas, quer dizer, acreditavam que tudo possuía uma entidade espiritual. Não apenas os seres vivos, mas também o sol, a água, as montanhas, etc.

Na vila de Fisterra, as pessoas se dirigem até o Monte Facho, que dá efetivamente término à Terra. São precipícios rochosos que mergulham fundo no Oceano Atlântico, logo após atingir seu cume. Existe um farol na região onde está também a escultura da bota de bronze.

Em Finisterre este monumento marca o fim da terra, na antiga rota de peregrinação.

Ali existem ainda algumas ruínas, atribuídas ao Eremitério de São Guilherme. Supõe-se que foi ali que os Romanos conheceram um singelo templo de pedra construído pelos Gallaeci para seus cultos ao sol, o “Ara Solis”, como descrito pelo historiador Galego, Benito Vicetto.

O Ara Solis dá uma dimensão indescritível de espiritualidade e transcendência para os que vão até lá. Ali, no local que era considerado o fim do mundo, de onde se vê o pôr do sol mergulhando no oceano atlântico todos os dias no fim de tarde.

Como mencionado no excelente artigo publicado pela BBC Travel “O antigo segredo guardado pelo Caminho de Santiago“, o local do Ara Solis foi descrito por alguns personagens ao longo da história. Primeiro pelo naturalista Romano, Plínio “O Velho”, no livro História Natural datado de 77 d.C., e depois por Ptolomeu, na obra Geographia, em 150 d.C.

Inicialmente, eles chamavam de “Nerium” ou “Promunturium Celticum”, que quer dizer “Promontório Celta”.

É no Monte Facho que os peregrinos queimavam no passado uma peça de sua vestimenta. Uma espécie de ritual de purificação e de renascimento. Isto é atualmente proibido, devido às claras questões de preservação ambiental no local.

Porém, os vestígios de rochas queimadas podem ser observados aqui e ali ainda hoje. Atualmente, em substituição a este ritual, alguns amarram pequenas peças de roupa aos arbustos espremidos entre as rochas, ali as deixam.

É aqui, onde o sol mergulha no oceano todas as tardes, e se recolhe para preparar o outro dia, que se percebe uma forte metáfora do processo de vida após a morte, e renascimento. Para os que ali chegaram peregrinando, e ainda chegam, não se pode ir além. É de fato o final da Terra!












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