Agência de Turismo e Operadora de Turismo - Blog Nattrip

Trilhas de longo curso – O desafio de criar demanda

O Brasil possui trilhas de longo curso?

As trilhas de longo curso estão em crescente alta no interesse dos aventureiros mundo afora. São uma tendência no cenário do Turismo de Aventura, demonstrando alto potencial de demanda e de benefícios deixados como legado. O que ainda não sabemos é quanto tempo vai levar para essa tendência se converter em realidade. O Brasil já conta com implementações bem estruturadas de trilhas de longo curso, projetadas, criadas e mantidas majoritariamente por voluntários. Mas tudo isso foi idealização de uma pessoa, e por isso eu bato palmas de pé para Pedro Menezes!

Já merecia pela ideia, mereceu duas vezes pela iniciativa, pró-atividade e implementação. Agora merece pela resiliência em defender com unhas e dentes o Sistema Brasileiro de Trilhas de Longo Percurso (SBTLC). Recentemente publicado, seu artigo deixa claro que há uma dificuldade de se atingir os níveis esperados de resultados no que tange criação e geração de renda nos circuitos de caminhadas de longo curso no Brasil.

O artigo do Pedro é fantástico, mas precisa de alguns polimentos, por isso resolvi complementá-lo.

Nós da Nattrip estamos há quatro anos investindo exatamente neste setor de caminhadas de longo curso, expedições e trekking. O primeiro ponto a polir é, faz-se necessário distinguir as diferentes motivações do público consumidor destes atrativos. Ficou clara a necessidade de definir segmentação de público no trecho em que Pedro diz: “A boa notícia é que substancial parte do público de caminhadas está em idade financeiramente saudável. Dados de todas as pessoas que completaram o Caminho de Santiago em 2017 mostram que 57% dos caminhantes tinham entre 30 e 59 anos de idade e 29% mais de 60 anos, faixas etárias que tendem a contratar mais serviços associados ao conforto.”.

Quem é quem nas trilhas de longo curso?

Há uma modalidade muito distinta de consumidores destes recursos chamada PEREGRINOS, que deve necessariamente ser tratada de forma diferente do consumidor chamado TREKKER ou TRILHEIRO. Para comprovar, o próprio Pedro cita que há superlotação de percursos famosos como Petrópolis x Teresópolis, onde não há peregrinos. O entendimento substancial destes consumidores é fundamental para as iniciativas empreendedoras. Nós emplacamos um estudo de público de quase um ano aqui na Nattrip sobre Santiago de Compostela com um recurso internacional que veio de Amsterdam só para isso. É outro público e precisa ser tratado de acordo com suas necessidades distintas.

A primeira coisa a se entender é que não há uma relação definida entre eles, os peregrinos podem ou não ser trekkers. Algumas pessoas dizem que há um processo de migração de um para o outro, e vice-versa, mas não há. Os trekkers são movidos a desafios, possuem motivação voltada para ideal e estilo de vida, o que nos remete à estado de espírito, enquanto existem peregrinos que são estritamente urbanos e procuram especificamente uma experiência espiritual, ou religiosa, e não tem intenção de fazer outras trilhas e aventuras após cumprir sua sabatina. Já para o trekker não há motivação de martírio. Apenas algumas pessoas se encontram na interseção destes dois públicos, e por assim dizer, possuem características próprias.

A verdade é que o Brasil carece de um pouco mais do que apenas as trilhas.

Como disse, há quatro anos estamos investindo pesado em trilhas de longo curso, projeto coordenado há 2 anos com dedicação exclusiva do Gabriel de Lemos. Os benefícios da implementação de uma rota de longo percurso, no longo prazo, são inegáveis. Começando pelo sentimento de identidade cultural e pertencimento das populações regionais, bem como a manutenção e difusão dessa cultura e história das comunidades e da região. Pode ser citada a formação de corredores ecológicos, educação ambiental a todos os envolvidos, o manejo do ecossistema com monitoramento de impacto ambiental, entre outros benefícios. A geração de emprego e renda também é inegável, mas demora para acontecer. Vamos deixar claro que longo prazo não é ruim, muito pelo contrário, é perene!

Como acelerar o processo de aumento de demanda para as trilhas de longo curso?

A difusão dos roteiros e consequente interesse do consumidor Brasileiro ainda é muito brando, sutil. A cultura Brasileira não é similar à francesa ou italiana. Não se pode assumir que basta criar, sinalizar e manter o traçado que pessoas irão percorrê-lo, e consequentemente restaurantes, pousadas, lojas de equipamentos serão instaladas no curso do atrativo. Não funciona assim no Brasil. Ainda estamos em processo de criação de massa crítica para estas atividades, onde essa parcela da população, em idade financeiramente saudável, ainda está se convencendo dos benefícios destas atividades para suas vidas e começando a vencer seus medos. Vai levar tempo, mas nós aqui na Nattrip já percebemos aumento considerável da procura. Além disso, temos um projeto recente de incentivo ao aumento de praticantes chamado Trekking Experience, onde promovemos para nossa base de leads saídas em roteiros alternativos que ainda não possuem demanda formada, à baixo-custo, justamente para incentivar e divulgar a existência destas rotas.

Escrevendo este artigo, esse foi o momento em que meu cérebro começou a superaquecer cheio de ideias. Acho que esta, talvez, seja uma das discussões mais desafiadoras em que me meti nos últimos anos.

Espalhados pelo Brasil há diversos pequenos operadores de trekking e trilhas, muitos são regionais e operam somente os trechos de sua região. Isso ficou evidente após o último ABETA Summit, Congresso Brasileiro de Ecoturismo e Turismo de Aventura realizado na Serra do Cipó em MG. Lá participaram inúmeros operadores que nunca figuraram no trade do Turismo de Aventura Brasileiro. Agora passam a figurar dentre os operadores conhecidos, inclusive por grandes agências que num cenário futuro contratarão seus serviços regionais. Mas resultados levam muito tempo.

Muitos destes empreendedores operam trechos em regiões que são desconhecidas no Brasil, senão apenas pela parcela de população mais próxima da região, ou o “nicho” dos envolvidos no projeto. Ainda não há fluxo e demanda suficiente para que estes pequenos empreendimentos sobrevivam exclusivamente do turismo de aventura, ou que justifique a implementação de negócios tangenciais como pousadas, lojas de equipamentos e demais serviços. Afirmo com conhecimento de causa que eles vivem um drama recorrente de captação de turistas, devido ao volume que ainda é escasso. Digo com conhecimento de causa pois venho comprovando ano após ano, por exemplo no Summit de 2017 em Santo Antônio do Pinhal, na Mantiqueira, participei de um famtour percorrendo uma travessia que levava até o Parque Tarundu em Campos do Jordão. A operadora que nos levou já não está mais na região.

Então como fazer para engrossar esse fluxo? Sabemos que aos poucos ele vai crescendo e ficando mais robusto, mas isso leva tempo. É possível acelerar o desvio do fluxo de demanda excessivo dos roteiros famosos para estas regiões? Como catalisar essa transformação? Na minha opinião seria preciso um trabalho de divulgação com amplitude por parte do empresariado, não apenas a Nattrip, a Gondwana ou a Venturas divulgando essas rotas.

Quem pode ajudar a promover e difundir os destinos por onde passam as trilhas de longo curso?

Eu, a Nattrip e muitos outros já compramos essa ideia. Por isso me comprometo a conversar com a ABETA e tentar instituir lá dentro uma rede colaborativa, um grupo de trabalho de trilhas de longo curso para discutir a criação conjunta de massa crítica Brasil afora e aceleração deste processo de criação de demanda. Uma rede que precisa ser colaborativa para funcionar, alcançando potenciais consumidores localizados nas mais distintas regiões e colocando essas pessoas no funil de decisão dos roteiros de trilha de longo curso que estão sendo criados pelo SBTLC.

A ideia é simples: esta rede colaborativa da ABETA irá promover exaustivamente um destino a cada intervalo de tempo.

Vou tentar ilustar com exemplos: Com um intervalo de tempo de 4 meses, é possível viabilizar a promoção de 3 destinos ao ano. Vamos imaginar que existem 50 operadores nessa rede dos quais 3 operadores são das regiões por onde passa a Rota das Araucárias. Estes 3 operadores da região se compromentem a criar e gerar conteúdo sobre a Rota no período dos 4 meses de promoção dela. Informação sobre a região, história, cultura, atrativos da Rota, operadores locais (como restaurantes e pousadas), culinária, estilo de vida, etc. Isso tudo em forma de artigos, posts e até divulgação de serviços mesmo. Os outros 47 operadores de outras regiões do Brasil, alguns grandes e muitos outros pequenos, durante estes 4 meses irão promover o conteúdo gerado pelos operadores de lá. Estes 47 operadores vão repassando e compartilhando em formato de posts de blog, de facebook, links e páginas dos operadores da região. Aqueles que quiserem, possivelmente os maiores, poderão implementar produtos e saídas de grupos para estas regiões durante o período de promoção, para dar mais ênfase. O conteúdo será colaborativamente espalhado pelo Brasil em websites, blogs, grupos de caminhada, grupos de trilheiros, clubes excursionistas, acelerando a formação de massa crítica e colocando estas pessoas influentes e geradoras de opinião no funil de consumo da Rota das Araucárias. Nos 4 meses seguintes, a gestão da rede vai monitorar junto aos operadores locais o fluxo de atendimento e aumento de demanda para eles, em tempo em que inicia-se o processo de promoção de uma nova região, vamos supor, o Caminho dos Goyazes. Ao se juntar e participar desta rede colaborativa, um operador regional receberá como contrapartida, em tempo, a promoção de seu destino e seus serviços. Uma rede de promoção privada, que independe de órgãos governamentais. Recomendo ainda que a prioridade de promoção dos destinos seja em função do número de operadores locais associados à rede.

Ao meu ver, o maior desafio será unir todos estes operadores em prol da causa. O maior argumento pró é que os operadores que fizerem parte da rede terão seus serviços e marcas difundidos, enquanto que aqueles que não participarem, apenas tentarão aproveitar os resultados por tabela (se forem capazes). Os grandes operadores poderão ganhar seguidores em seus blogs e redes compartilhando conteúdo de qualidade, ao passo em que terão à sua disposição novos fornecedores e roteiros. A contra-partida de todos da rede é clicar no botão de compartilhar.

Será que a ABETA compraria essa ideia?

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Redator
Rodrigo Fernandez

Rodrigo Fernandez

CEO - Chief Executive Officer

Rodrigo Fernandez é pós-graduado em Global Business Management, fundador e CEO da Nattrip. Atua no segmento de turismo na natureza. é amante e praticante de expedições de trekking, trilhas, escaladas em rocha e mergulho. Ex-analista de redes de computadores e de segurança da informação, Rodrigo está à frente da Nattrip desde 2010, empresa que foi projetada a partir do rascunho e 100% autofinanciada.

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